Já nasci verde. Chega a ser irônico nascer verde numa cidade poluída como São Paulo. Mas foi o que aconteceu. Dizem que eu saí da minha mãe já com uma camisa do Palmeiras. Acho exagero. Com uma bandeira na mão, eu acredito.
A infância no sobrado da viela sem saída dá cara de cenário de novela. Poder brincar na rua e correr pra cima e pra baixo sem nenhuma preocupação foi um privilégio numa cidade como aquela. Hoje, aqueles vizinhos viraram personagens de uma história que eu lia todo dia, na minha cabeça.
Os almoços de domingo na casa da vó são a razão para que, até hoje, o domingo tenha cara de família pra mim. Sinto falta da família inteira em volta da mesa, como naquele tempo. Férias em São Vicente e em Ribeirão Preto. Outros privilégios que também deixam um gosto saudoso de coisa boa.
Sair de São Paulo só não foi difícil porque já existia em mim um desejo de descobrir o novo. Um certo desapego com a mesmice. Desapego ou repulsa, ainda não sei. Mas é algo por aí.
Um ano em Goiânia. Se em São Paulo eu produzi as lembranças mais infantis, em Goiânia começo a gerar lembranças ‘de moleque’. De pular muro pra entrar no clube, sumir de bicicleta.
Chegar ao meu Belo Horizonte me deu uma certeza: Sou um mineiro que nasceu em São Paulo. Aqui é a minha terra natal. Amo esse lugar, sua cultura e sua gente. Minas não tem mar porque tem os butecos. E o lugar que tem os butecos que temos aqui não precisa de mar.
Muitas conquistas, algumas perdas. Alegrias e decepções como todo mundo. Mas um jeito de ver a vida que é só meu. Porque o meu segredo está aí.